Recentemente, recebi duas perguntas, com intervalo de tempo bem pequeno entre elas:

“Eu minerei bitcoins há alguns anos, e então vendi quase tudo para dar entrada na compra da minha casa. Eu cheguei a ter 400 BTC, que hoje estariam valendo 6,8 milhões de dólares. Não preciso nem dizer o quanto estou deprimido com isso. Só guardei 1 BTC, deveria ter guardado mais?”

E essa outra mensagem:

“Meu marido comprou bitcoins, meu filho comprou etherium! Estou pensando se deveria migrar o dinheiro da minha previdência para bitcoin.”

Todo mundo, inclusive minha mãe, está se perguntando se deveria comprar bitcoin ou alguma outra criptomoeda. E já que todo mundo está perguntando, apareceram muitas pessoas com pouca informação emitindo respostas. Mas se você tentar achar uma resposta sólida e confiável para essa pergunta, vai acabar ficando mais confuso ainda. Responder essa pergunta envolve adivinhar para onde vai o preço do bitcoin no futuro, e qualquer pessoa honesta deveria dar uma única resposta: não sei, não é possível saber.

Então, eu humildemente sugiro que você se faça uma outra pergunta, antes de decidir.

A pergunta que você deve fazer a si mesmo é: bitcoin se encaixa no meu plano de investimento?

A pergunta que estou sugerindo é muito mais importante que “devo comprar bitcoin?” e encontrar a resposta certa é também muito mais fácil

Essa pergunta é muito mais importante que “devo comprar bitcoin?” e encontrar a resposta certa é também muito mais fácil. Ela te obriga a dedicar atenção ao seu processo de decisão e ao processo de investir corretamente, e não à adivinhação de eventos futuros sobre os quais não temos nenhum controle.

 

Para encontrar a resposta para essa pergunta sobre o seu processo de investimento, pode ser útil esclarecer alguns pontos.

Investir é diferente de especular. Especular é sinônimo de apostar. Investir é um meio para atingir um fim. Esse fim, ou finalidade, é atingir os seus objetivos financeiros. Superar o mercado de ações, comprar o investimento queridinho do momento, “ganhar” dinheiro fácil ou ter mais rentabilidade que o seu cunhado – esses não são objetivos financeiros.

Objetivos financeiros tipicamente são: comprar uma casa, ter dinheiro para a faculdade dos filhos, fazer uma viagem incrível e aposentar-se com tranquilidade e conforto. É para isso que nós investimos.

Depois que você começa a declarar (para si mesmo!) que determinados objetivos importantes são os motivos pelos quais você investe, então você pode passar a estudar o processo de investimento que poderá te ajudar a atingir esses objetivos e ao mesmo tempo correr o menor risco possível com o seu dinheiro. Quando você começa a estudar esse assunto, a sua estrada inevitavelmente vai te levar a um conceito que pode ser considerado a lei da gravidade no mundo dos investimentos: a necessidade de diversificar.

Investidores não concentram todos os ovos em uma só cesta. Isso é algo que os especuladores fazem. Nossos objetivos financeiros são marcos importantes em nossas vidas, e as consequências de falhar são muito altas. Então nós dividimos o nosso dinheiro em diferentes tipos de risco, diversificando em diferentes tipos de investimentos, como renda fixa, ações e imóveis, tanto em nosso país como no exterior. Nós escolhemos cada um deles cuidadosamente, baseado na forma como o comportamento de um interage com o comportamento dos outros que estão em nossa carteira.

É assim que funciona o processo de investimento bem-feito. E, sim, é um trabalho meio chato, sem emoção. Mas é muito melhor (e muito mais eficiente para atingir seus objetivos) do que ficar tomando prejuízo ao comprar na alta e vender na baixa, que é o que acaba acontecendo várias vezes quando você passa a vida correndo atrás das notícias financeiras e da conversa de bar daquele seu amigo que “ganhou muito dinheiro” numa tacada “de gênio”.

Então, a decisão que você precisa tomar não é sobre comprar bitcoins. Assim como também não era sobre fundos de inflação em 2012, sobre fundos imobiliários em 2011, sobre a compra de imóveis em 2007, ou sobre empresas ponto-com em 1999. A decisão que você precisa tomar é sobre fazer investimentos ou fazer uma outra coisa que tipicamente chamamos de apostar ou especular. A sua angústia não é se o bitcoin vai valorizar ou sobre o “melhor investimento do ano” que você perdeu a oportunidade de fazer no ano passado. Todas essas coisas você não pode controlar.

Você deve decidir entre fazer investimentos ou fazer uma outra coisa que tipicamente chamamos de apostar ou especular

O que você pode controlar é o processo de identificar objetivos, construir uma carteira de investimentos que seja compatível com esses objetivos, e manter o ritmo de investimento por um prazo muito longo (mesmo quando o mercado parece assustador ou quando parece que é melhor vender tudo). Essa é a fórmula com maior probabilidade de atingir seus objetivos — e com segurança.

Para concluir: eu não posso te responder se você deve comprar bitcoin. Mas eu posso sugerir fortemente que você se faça a pergunta certa.